sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

NEUZA MACHADO - DO PENSAMENTO CONTÍNUO À TRANSCENDÊNCIA FORMAL



ESTA É UMA DAS MELHORES TESES DE DOUTORADO QUE EU ORIENTEI. NEUZA, INFELIZMENTE, JÁ FALECIDA. (ROGEL SAMUEL)

NEUZA MACHADO - DO PENSAMENTO CONTÍNUO À TRANSCENDÊNCIA FORMAL






NMACHADO

RIO DE JANEIRO
2006



NEUZA MACHADO



DO PENSAMENTO CONTÍNUO À TRANSCENDÊNCIA FORMAL

(1a edição)



NMACHADO

Rio de Janeiro - 2006
Ó Neuza Machado

Todos os direitos reservados e protegidos por lei.
Proibida a duplicação e/ou reprodução deste volume ou parte dele,
sob quaisquer meios, sem a autorização expressa da autora e/ou herdeiros diretos.


ISBN  85-904306-1-8

Editor(a)
NEUZA MACHADO

Capa
ALEXANDRE MACHADO

Foto da Capa


Diagramação
ALEXANDRE MACHADO

Revisão
NEUZA MACHADO


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SNEL – SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ


____________________________

                Machado, Neuza,    1946-
                      Do pensamento contínuo à transcedência formal. 1. ed. – Rio de Janeiro: NMachado, 2006 

                Bibliografia e Notas
1 . Teoria Literária   -  Crítica Literária   -   Sociologia da Literatura   -  Filosofia   - Literatura Brasileira
I .  Machado, Neuza,  1946-       II .




2006


EDITORA NMACHADO
Rua Ana Silva, 124 / 10 – jacarepaguá
22740-300 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
Tel.: (21) 3392 6136 / Celular: (21) 99965492

Impresso no Brasil
Printed in Brazil



SUMÁRIO


I -.............. INTRODUÇÃO ...............................................................................          11



II -............. UM SERTÃO INESQUECÍVEL  .............................................................          33
II.1 -............. Sertão: Casa da Infância .........................................          33
II.2 -............. O Artista e suas Máscaras ......................................          50
II.3 -............. Sertão: Cenário da verdadeira representação
                        do Eu Ficcional do ArtistA..............................................   60
II.4 -............. Aprendendo a administrar
Conflitos ........................................................................          74
II.5 -............. Resgatando Lembranças .........................................          85
II.6 -............. O Tempo suspenso entre o antes
e o depois ........................................................................          93
II.7 -............. A Filosofia do Vazio em
contraposição à do Cheio .......................................          96
II.8 -............. Passagem dos Cogitos ...............................................        104
II.9 -............. O Sonho do Artista: Elo de Ligação
com o Cogito(4) .............................................................        127
II.10-............ Psicanálise da Criação .............................................        132
II.10.1  Da reprodução à autêntica criação ........................................        132
II.10.2  Uma perspectiva dialética .....................................................        152
II.10.3  Mudanças no discurso narrativo ..........................................        161
II.10.4  Sob a influência do fogo ......................................................        169
II.10.5  Da agitação ao conflito .........................................................        182
II.10.6  O colorido do sertão roseano ...............................................        191
II.10.7  Uma perspectiva maravilhada ..............................................        200
II.10.8  Sertão: sofrimento e conflito ................................................        210
II.10.9  Os graus da imaginação na obra roseana ..............................        219
II.10.10 A temática da água ..............................................................        225
II.11-............ Ascensão ao Concreto ..............................................        244
II.11.1  Uma perspectiva substancial infinita ....................................        244
II.11.2  O narrador perde a vez .........................................................        255
II.11.3  O elemento Ar: a um passo do infinito .................................        263
II.11.4  Além do cogito(3) ................................................................        272
II.11.5  Conclusão: Recriando o passado ..........................................        282



III -............ CONCLUSÃO .................................................................................        285



IV -............ BIBLIOGRAFIA ..............................................................................        297



V -                 NOTAS .......................................................................................................        301






Quer queira quer não, o romancista revela o fundo de seu ser, ainda que se cubra literalmente de personagens. Em vão ele se servirá "de uma realidade" como uma tela. É ele que projeta essa realidade, é ele sobretudo que a encadeia.

*Gaston Bachelard


Nasci no ano de 1908. (...). Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim, são minha maior aventura. Escrevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito; o momento não conta. Vou revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente.

Nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim, sim, de muita importância. Além disso, em Minas Gerais, sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo: Cordisburgo.

Eu sou antes de mais nada um "homem do sertão"; e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também, e nisto pelo menos eu acredito firmemente, que ele, esse "homem do sertão", está presente como ponto de partida mais do que qualquer outra coisa.

Este pequeno mundo do sertão, este mundo original e cheio de contrastes, é para mim o símbolo, diria mesmo o modelo de meu universo.

Fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida. (...). Estas três experiências formaram até agora meu mundo interior; e, para que isto não pareça demasiadamente simples, queria acrescentar que também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com os cavalos, vacas, religiões e idiomas.

É impossível separar minha biografia de minha obra.

Tudo isto é curioso, mas o que não é curioso na vida? Não devemos examinar a vida do mesmo modo que um colecionador de insetos contempla os seus escaravelhos?

**GUIMARÃES ROSA







I - INTRODUÇÃO

I - INTRODUÇÃO


Nestas páginas iniciais, em diálogo com Gaston Bachelard, o meu objetivo é demonstrar a possibilidade de se alcançar o cogito(4) da realidade espiritual por intermédio da Arte Literária, sem que, com isto, o indivíduo (orientado por exigências do intelecto) se desequilibre no plano das atitudes de vida socialmente aceitas.
           
Neste caso específico, nos capítulos seguintes, estarei a dialetizar e a reinterpretar algumas narrativas de Guimarães Rosa, seguindo uma provável cronologia, intencionando provar que o Artista brasileiro, nato do sertão, conseguiu elevar-se ao referido cogito no plano da Literatura-Arte.

O cogito(4), na filosofia bachelardiana, é um estágio de pensamento de difícil ascensão, já ligado ao plano do Espírito, o qual possibilita ao ser humano projetar-se para fora da linha vital. Por este ângulo, Bachelard admite a possibilidade de vários cogitos superpostos, inclusive a possibilidade de cogitos desconhecidos acima do cogito(4). Porém, visando o equilíbrio mental/social do homem, destaca apenas três potências do pensamento (cogito(1), cogito(2) e cogito(3)), afirmando que estas forças são as únicas que ainda oferecem uma particular felicidade ao indivíduo (conhecedor do cogito(3) do pensamento puro), além de proporcionarem a aceitação de idéias elevadas por parte dos representantes dos cogitos um e dois.

Por este ponto de vista, aqueles que alcançam o cogito(3) não se desprendem totalmente dos cogitos um e dois, vivendo numa interação salutar com os outros membros da sociedade, no plano do cogito ao cubo (plano vital), e recebendo desses uma respeitosa reverência. Em outras palavras, os que recebem a marca da individualidade são aceitos como excepcionais, mas não são considerados totalmente excêntricos pelo grupo social a que pertencem, ao contrário, suas idéias são bem recebidas e imitadas.

Enquanto os cogitos um e dois são lineares — cogito(1): primário / cogito(2): transitivo —, o cogito(3) é lacunar, pois é propriedade exclusiva do indivíduo que pensa além dos pensamentos instituídos. O cogito(3) seria assim o plano mental do ser humano possuidor da chamada consciência pura (ou consciência singular). A consciência pura seria a consciência daqueles que não se deixam envolver pelos valores vitais.

A ascensão ao cogito(4) (plano espiritual), segundo Gaston Bachelard, oferece perigos ao pensador, pois se situa fora das exigências vitais. Entretanto, poderá ser pressentido por estudiosos capacitados, por intermédio de insólitos textos ou de estranhos desenhos das chamadas pessoas iluminadas.

No que diz respeito ao reconhecimento do cogito(4) nas narrativas de Guimarães Rosa, as quais serão aqui realçadas, e certamente nos capítulos a elas destinados, apresentarei a minha posição de teórico-crítica exclusivamente ligada à Teoria Literária, uma vez que dialogarei com as teorias filosóficas de Gaston Bachelard pelo ponto de vista da interdisciplinaridade, reivindicando, sempre que for necessário, a minha condição dual de analista e intérprete do texto literário, de acordo com os preceitos da interdisciplinaridade. Centralizando meus argumentos interpretativos no cogito(4), procurando provar que o referido cogito pode ser detectado no plano da Literatura-Arte, intenciono desvincular-me das tradicionais barreiras dos modelos críticos formalistas/cientificistas, por meio da contribuição de pensamentos oriundos da filosofia assinalada, admitindo assim novas possibilidades de incursão crítica no universo literário.

Entretanto, uma importante advertência devo aqui salientar: esta teoria não é bachelardiana como parece ser. Utilizo-me de alguns pensamentos de Bachelard, aproprio-me de algumas de suas idéias e estarei aqui em permanente diálogo com seus textos, mas o argumento que me orienta relaciona-se com a hermenêutica (a renovada hermenêutica do final do século XX e início do século XXI), proporcionando-me distinguir no texto alheio o reflexo de meus próprios conhecimentos. Por tais motivos, hermeneuticamente estarei dialogando com a filosofia de Bachelard, uma filosofia ligada à razão, à sabedoria, às origens do pensamento do homem e suas causas posteriores; uma orientação filosófica que tem por base uma fenomenologia que imerge na mais profunda raiz do pensamento ocidental. E, de certo modo, conscientemente poderei dizer que este é o meu Bachelard, isto é, tenho de Bachelard uma certa leitura e aproximação muito mais literária do que filosófica.

Restabelecendo um importante juízo de Bachelard, registrado em seu livro A DIALÉTICA DA DURAÇÃO, no qual admite a possibilidade de intervalos temporais propiciando o surgimento de obstáculos, desvios, impedimentos, que poderão ou não quebrar as cadeias causais (ou seja, entre causa e efeito há sempre uma intervenção de acontecimentos possíveis que não estão ligados ao dado causal), colocarei aqui em evidência meus pensamentos dialetizados, situando-os exatamente nesse plano de probabilidades. Este meu ponto de vista teórico-crítico, interagindo aqui com a filosofia bachelardiana, é uma teoria não-causal no plano da Arte, uma vez que estarei buscando novas argumentações críticas (transmutando pensamentos já avaliados, aspirando a uma renovação nos atuais estudos da literatura brasileira), próximas de nossa realidade cultural, objetivando desenvolver um intercâmbio de idéias comunitárias com nossos artistas literários.

Não estarei presa simplesmente à causa, mas interessada em ultrapassar os obstáculos, visando muito mais o que poderá surgir como novidade no âmbito da Teoria ou da Crítica Literária, neste início de Terceiro Milênio. Penso assim movimentar-me para um novo início teórico-crítico, que abarque a realidade literária da qual faço parte, como leitora-intérprete consciente da urgência de invenção de uma variante crítica autóctone que acompanhe a criação literária de nossos escritores. Uma teoria causal, objetivando um fim imediato, por ora, seria impossível, devido aos inevitáveis obstáculos, mas nada irá impedir-me de aventurar-me nas veredas das probabilidades quantificadas, probabilidades estas que darão conta posteriormente dos resultados que procuro obter.

Nestas páginas iniciais, é necessário esclarecer que o meu envolvimento intelectual com a filosofia bachelardiana surgiu de uma íntima recusa em seguir fielmente os modelos europeus, analítico-cientificistas, de como se desenvolver um estudo literário. É importante realçar que esses modelos foram projetados para o estudo de obras literárias voltadas para a realidade européia, as quais, em absoluto, não se ajustam à nossa realidade. As pesquisas acadêmicas, sobre a literatura brasileira, deveriam pautar-se por um conhecimento teórico-interpretativo próprio, um direcionamento crítico que se identifique mais com as idéias criativas de nossos narradores e poetas. Por tais motivos, repito: As teorias e críticas literárias européias foram inventadas para suprirem as necessidades de análise e/ou compreensão de textos literários europeus. É preciso enfatizar que essas teorias não abrangem o todo de nosso universo literário, uma vez que não foram pensadas em função de nossas vivências. Entretanto, mesmo afirmando a minha intenção de dialogar com os conceitos bachelardianos (conceitos filosóficos oriundos da Europa), quero reafirmar que, ao longo desta sondagem interdisciplinar, o meu ponto de vista sobre a ficção roseana desenvolver-se-á sob uma particular interpretação dessas idéias.

Para a compreensão de minhas posteriores argumentações, ao longo dos capítulos deste livro, faz-se necessário repetir e explicar (por um processo de abordagem nitidamente tautológico) que o cogito(4), segundo Bachelard, não se liga ao plano vital (de causa e efeito), mas ao plano espiritual de difícil ascensão, e o meio racional para reconhecê-lo seria pensar o intervalo vazio entre ambos.

Por esta via, se repenso a literatura-arte brasileira do século XX, dou-me conta de que ela é originária do Mundo do Silêncio (também conhecido por Vazio Criador ou Vazio Bashoniano). Os escritores das estéticas modernistas e pós-modernistas e os atuais estudiosos de teoria literária são os venturosos conhecedores desse mundo sem formas estabelecidas. Os Artistas — ficcionistas e poetas — dessas estéticas (íntimos dessa realidade insólita) iniciam suas criações no auge de suas oposições aos hábitos inveterados da realidade que os cerca. Rejeitando os limites vitais, chocam-se com a vida ordinária e tentam, literariamente, fazer o tempo refluir sobre si mesmo, racionalizando e, ao mesmo tempo, sentimentalizando em um grau superior, distanciado dos sentimentos telúricos (esteticamente), suas próprias realidades subjetivas, procurando renovar velhos conceitos ou criando novas substâncias. É necessário ressaltar que, no que se refere aos modernistas e pós-modernistas brasileiros, o ato de sentimentalizar intimamente e esteticamente é bem diferente do sentimentalizar romântico, é um sentimentalizar que passa pelo crivo da razão.

Ao invés de se originar do plano histórico (contínuo, linear), a autêntica criação ficcional brasileira do século XX (incluindo as narrativas sertanejas de Guimarães Rosa a partir de A hora e vez de Augusto Matraga, obras literárias reconhecidamente verticais) tem sua origem no mundo do Vazio Criador (o já nomeado Mundo do Silêncio). Originária deste mundo informe, ela só fará parte do plano dos fenômenos já conceituados depois do repouso ativado do escritor, quando o sentimento inicial, telúrico, tornar-se parte integrante da duração pela razão, transformando-se, como já foi dito, em um sentimento renovado.

Para demonstrar esta transformação literária nos textos ficcionais de Guimarães Rosa, busquei a contribuição da filosofia de Bachelard. A partir deste auxílio, poderei reafirmar a minha proposta teórico-crítica, seguindo evidentemente um roteiro previamente elaborado, no qual destacarei alguns temas importantes, consciente de que os mesmos contribuirão para reforçar o desenvolvimento de minhas argumentações, unindo as idéias que formarão o alicerce de meu objetivo. Assim, verificarei, em primeiro lugar, a relação do escritor com a obra, considerando que as narrativas têm com o sertão da infância, da adolescência e das recordações uma relação interna indissolúvel, já que foi dito que este sertão em especial é o inventor da obra literária roseana, e o contrário também vale: o texto ficcional  criou o sertão roseano.

Na primeira parte de minhas assertivas, falarei do sertão mineiro propriamente dito, o sertão sócio-cultural, atavicamente preso à infância do escritor Guimarães Rosa, evidentemente, revelador do aspecto paradoxal de sua personalidade, por um lado, comprometida com os valores da modernidade (ao vivenciar cotidianamente essa modernidade), entretanto, por outro lado e ao mesmo tempo, muito mais comprometida com os valores sertanejos. É lícito observar que o escritor de origem sertaneja, em sua ficção poética (conceituação do próprio Guimarães Rosa, na Entrevista ao crítico alemão Günter Lorenz), procura ressaltar um determinado sertão, aquele de sua infância, que se encontra distanciado, temporal e socialmente, da realidade sócio-geográfica do sertão do Estado de Minas Gerais, realidade esta refletora da deterioração de uma sociedade brasileira mal-edificada.

Partindo do princípio de que a questão é importante, já que se liga aos temas tempo e espaço, e conseqüentemente ao tema dos cogitos superpostos, observarei, em um pequeno capítulo, pela ótica poético-filosófica de Gaston Bachelard, a obra ficcional de Guimarães Rosa, vigilante à possibilidade de ver (ou perceber) no referido sertão a casa inesquecível e seus recantos secretos, da qual fala o filósofo-camponês (nascido em França, na região vinícula da Champanha) em sua POÉTICA DO ESPAÇO.

Referindo-me ao escritor Guimarães Rosa e ao seu lugar de origem, tratarei do tema das máscaras sociais, no intuito de demonstrar a sua ascensão socio-intelectual de brasileiro, do sertão do Estado de Minas Gerais, lugar que ainda resguarda anteriores vivências primitivas, no mundo moderno das cidades, e o seu retorno às origens sob o predomínio da Arte Literária.

O tema das máscaras sociais privilegiará uma reflexão sobre esse homem incomum, herdeiro das experientes normas de seus ancestrais, em face da moderna e intelectualizada cultura das metrópolis e magalópolis. Esse homem, socialmente e intelectualmente reverenciado, entrará na primeira parte desta propedêutica, quando verificarei a relação do Ficcionista, superior, culto, integrado à sociedade elitista, com o sertão da infância, espaço este lingüisticamente criticado e socialmente rejeitado pelas camadas urbanas mais elevadas.

A seguir, destacarei a intermediação entre este processo inicial e o princípio da verificação do conteúdo narrativo-ficcional repleto de matéria de procedência poética. Neste capítulo, estarei dialogando com os pensamentos filosóficos de Gaston Bachelard sobre o tempo suspenso entre o antes e o depois, tempo este que não se adéqua às exigências vitais, lineares, do tempo histórico. Esclarecendo melhor, retomarei reflexivamente o entendimento bachelardiano sobre a questão do repouso fervilhante (diferente da idéia de repouso como descanso das preocupações cotidianas), propiciador de um juízo de descoberta, ondulatório, o qual leva à realização de uma possibilidade; no caso específico, à realização da possibilidade de existência literária de um sertão insólito, oriundo das recordações do passado (recordação: matéria lírica invadindo o espaço ficcional). Esta intermediação mostrará a temática dos cogitos, propiciando o direcionamento de minhas idéias transmutativas, para a elaboração e fechamento de meu objetivo preferencial.

A conceituação do tempo, ou da duração, pela ótica de Bachelard, é uma conceituação ainda inovadora no âmbito filosófico, porque não se tem notícia de novidades filosóficas que rejeitem ou ultrapassem as idéias do filósofo francês. Essas idéias diferenciadas tiveram, como ponto de apoio, as teses de Einstein e Gaston Roupnel, além de uma reavaliação dos pensamentos de Henri Bergson sobre o tempo.

Reavaliando os pensamentos de Henri Bergson, preocupados apenas com o aspecto linear e pleno do tempo vital, Bachelard procura provar que, acima desse tempo vital (contínuo), há o tempo do pensamento (descontínuo) e o tempo espiritual (totalmente lacunar). O tempo vital (cogito(1)) e o tempo do pensamento (cogito(2) e cogito(3)) estariam situados exclusivamente no plano vital, e o tempo espiritual (cogito(4)), restrito ao plano espiritual de difícil ascensão.

Bachelard postou-se contrário à tese da continuidade temporal bergsoniana, passando a postular criticamente a existência de lacunas na duração, argumentando que, se há em Bergson uma filosofia do tempo pleno, positivo, teria de existir, em contrapartida, uma filosofia da negatividade. Postulando a idéia de um tempo negativo, o filósofo descobriu a possibilidade de se realizar uma incursão-excursão no espaço intermediário entre as duas realidades temporais. Esta negatividade, baseada na ritmanálise, levaria os esforços de dissociação até ao tecido temporal, ativando o ritmo da criação e da destruição, da obra e do repouso, retendo o tempo reconquistado, conhecendo o tempo, aceitando e compactuando com a idéia do princípio da negação.

A respeito de uma conceituação do pensamento, este não é privilégio apenas do tempo vivido (tempo linear), faz parte na verdade do tempo pensado (superior), em estado nascente, e se caracteriza por uma tentativa de vida nova, um desejo de viver de outro modo, de superar os obstáculos do cotidiano. Pensar sobretudo o tempo, pelo ponto de vista de Gaston Bachelard, é enquadrá-lo, localizá-lo no interior da própria vida; é propôr-se, também, a uma vida diferente e rica.

O conhecimento estaria, por este aspecto, em relação direta com o pensamento. A sua grandeza seria determinada no enriquecimento interior do ser que pensa. O desenrolar desse conhecimento seria simplesmente uma conseqüência da vontade do pensador, a elevação de uma aprendizagem constante, feita de preenchimento de mensagens provenientes do exterior, sustentada por forças exteriores, mas reconstruída, ordenada e novamente sustentada pelo desejo de saber.

A vontade do pensador se origina do repouso fervilhante. Há uma grande diferença entre o repouso, ato de descansar a mente das paixões cotidianas, e o repouso fervilhante do pensamento (repouso ativado), algo ainda meio vazio, em suspenso, oscilando entre o antes e depois do tempo do pensamento. O indivíduo, consciente de seus pensamentos, adquire o direito de colocar sua inteligência a serviço de fervilhantes questionamentos ou reflexões, os quais poderão ou não renovar as formas ideológicas já instituídas socialmente.

Ao momento que sucede o repouso ativado, início de novas e originais formas de pensamento, Bachelard denomina de juízo de descoberta.

O repouso fervilhante do pensamento (ou repouso ativado) traduz-se, em princípio, por um esvaziamento da mente em relação aos conceitos usuais, uma reflexão que induz a uma breve imobilidade mental, na qual se acrisolam pensamentos díspares, os quais serão reordenados inversamente em seguida e direcionados para novas e surpreendentes descobertas mentais.

O juízo de descoberta, originário desse repouso ativado, é diferente também do juízo afirmativo, juízo este postulado por Henri Bergson e reavaliado por Gaston Bachelard. O juízo afirmativo, juízo das formas já institucionalizadas, apenas acentua o caráter de uma afirmação. Por exemplo, dois juízos em que o primeiro afirma que uma mesa é branca, apenas deixa transparecer o caráter determinado e direto do juízo exposto; quando se afirma o contrário, ou seja, que a mesa não é branca, observa-se simplesmente o caráter indeterminado e indireto do segundo juízo. O juízo de descoberta modifica os valores da verificação sobre a mesa branca. Ao invés de repetir a cor ou não da mesa, propicia a descoberta de uma singular mesa branca, especialíssima; suscita um debate positivo sobre uma diferente e polêmica mesa branca, gerando espanto, exclamações, discussões, fundados em dúvidas preliminares. Descobre-se enfim a existência de uma especialíssima mesa branca, em meio a tantas e tantas mesas brancas ou não. Galileu, por exemplo, descobriu o movimento da Terra e foi castigado por seu atrevimento.

Ainda acompanhando o raciocínio de Bachelard, as afirmações do juízo afirmativo nem sempre demonstram conhecimento positivo. Tal conhecimento deverá ser observado nas ondulações das argumentações geradas pela dúvida preliminar (polemizada), tal conhecimento poderá ser constantemente destruído e reconstruído, às vezes nunca terminando a construção, mas, sobretudo, deverá aspirar ao impulso renovador do pensamento transmutativo.

Sobre a filosofia de Henri Bergson, quero esclarecer que Bachelard não a rejeita, em absoluto; apenas utiliza-se dela para desenvolver suas reformulações sobre a questão da duração, reformulações que têm também uma ligação reflexiva com Albert Einstein e Gaston Roupnel, como já foi dito antes. De minha parte, o que apreendi da filosofia de Henri Bergson, sobre a duração, evolou-se de uma reflexão rápida do quarto capítulo de seu livro L'Évolution Creatrice, “Le Devenir Réel et le faux Évolutionisme; a contra-argumentação é genuinamente de Gaston Bachelard, realçada em suas adesões e críticas ao pensamento do filósofo da metafísica do pleno. Não darei profundidade aos estudos de Bergson por razões estratégicas. Com isto, evitarei uma provável introdução de um elemento novo em minhas teorizações, o que dificultaria o objetivo de meus juízos diferenciados sobre uma entre inúmeras formas de o estudioso da literatura se envolver com o texto literário. Entretanto, as atuais exigências acadêmicas, relativas à interdisciplinaridade, estarão aqui realçadas. Esta inovadora orientação crítico-pedagógica traduz-se como um alerta em face deste recente momento de transição histórico-social-literário para o terceiro milênio.

Depois da intermediação, refletirei sobre a temática dos cogitos propriamente dita, ligando-a, num processo interativo, ao universo literário de Guimarães Rosa, ressaltando os quatro elementos que sustentam a vida (terra, água, fogo e ar), os quais estão presentes na obra roseana sob o predomínio da imaginação criadora ativada, alicerçando-a e propiciando, seletivamente, a ascensão do escritor aos cogitos superiores.

Os quatro elementos agirão como degraus e serão eles os responsáveis pela mudança de pensamento do ficcionista de ascendência sertaneja, desde Sagarana (pequenas narrativas experientes, ligadas aos aspectos exteriores do sertão) até a fase final, na qual se detectam a sua ascensão ao plano intermediário (entre o cogito(3) e o cogito(4)) e a posterior concretização de seus pensamentos criativos singulares, originários desse plano incomum. A esta parte intermediária, ligada à temática dos cogitos e aos elementos vitais, chamarei Psicanálise da Criação.

Sobre este título, Psicanálise da Criação, quero esclarecer que o termo surgiu em minhas incursões teóricas ao universo filosófico-psicológico de Bachelard, já que ele se auto-define como psicólogo de livros. Adotei esta terminologia para explicar o terceiro momento da atividade criativa de Guimarães Rosa. Psicanálise da Criação passará a ser, aqui, exclusivamente, o título de um capítulo de minhas explanações teóricas, sem um compromisso interdisciplinar com a Psicanálise do Texto Literário propriamente dita, representando apenas o meu particular método de abordagem, unindo a Ciência da Literatura à filosofia bachelardiana. Este título se fez necessário, porque, procurando desvendar as desordens mentais do moderno (ou pós-moderno?) narrador roseano das últimas fases (Primeiras estórias, Tutaméia e Estas estórias), atingi teoricamente a vida psíquica consciente e inconsciente do Artista ficcional brasileiro do século XX, independente de ser ele Guimarães Rosa ou não, preso ao seu próprio tempo histórico desordenado. (Observação: É importante afirmar e reafirmar sempre que a palavra desordem, realçada aqui e em algumas páginas dos capítulos seguintes, não possui caráter depreciativo. A palavra em questão deverá ser compreendida pelo seu significado etimológico).

Recapitulando a temática dos cogitos, no cogito(1) (cogito primário) percebe-se que todo pensamento gera uma representação no mundo físico, uma causalidade eficiente. Quando o pensamento não é concretizado imediatamente, gera um impasse (uma argumentação), e esse impasse obriga a uma busca de novas formas de concretização do pensamento inicial. Este momento de impasse (reflexões, questionamentos) localiza-se no cogito(2).

No cogito(2), o pensamento ativado, nascido de um primeiro pensamento, gera uma reflexão (ou uma interrogação, quando não há a possibilidade de concretizar o pensamento), que poderá ou não levar a uma causalidade final (cogito(2)) ou a várias causalidades díspares (cogito(3)). Este impasse é uma interrupção, um desvio, na cadeia causal. Entre causa e efeito há intervenções que modificam o fim esperado, intervenções essas que preparam a renovação do probabilismo de acontecimentos, os quais não estão em absoluto ligados à determinação causal. Se a causalidade final (cogito(2)) não for alcançada, propiciará uma nova lacuna, possibilitando uma nova busca, que poderá ou não atingir ao plano do cogito(3) da consciência pura.

Sobre o cogito(3): Quando se chega a este estágio de repouso ativado (ou repouso fervilhante), o ser, aquele já desenvolveu tais capacidades de pensamento, poderá conseguir quase tudo o que necessita no plano da vida consciente. Por isto, Bachelard (A DIALÉTICA DA DURAÇÃO) afirma que o indivíduo que alcança esse nível de conhecimento de sua atividade psíquica passa a ter uma particular felicidade. No cogito(3), plano lacunar, quase espiritual (abeirando-se do espiritual), o que o indivíduo imaginar, em termos de idéia, já toma uma forma definida, que poderá adquirir vida no mundo dos fenômenos, se ele assim o desejar. O que este indivíduo imaginar, no plano do pensamento puro, ao nível do cogito(3), tem tanta força, aparece tão bem definido, que ele saberá como dar forma a essa imaginação no mundo real. O ser especial, singular, o que consegue alcançar o cogito(3), não tem necessidade da representação (primária) da realidade vital — ordinária, linear —, pois a representação desse cogito se basta da forma que foi alcançada no tempo do pensamento, que é tão definida quanto seria se ela fosse representada no plano do tempo vital. É nesse espaço do pensamento (ainda nos limites da realidade vital, mas acima do tempo vital) que a vida espiritual (cogito(4)) torna-se estética pura, vida esta que só se tornará possível dentro do tempo descontínuo. Penso, revigorada por tais idéias, na literatura do século XX e início do século XXI, especificamente, como oriunda do cogito(4), plano da espiritualidade, descontínuo, mas formalizada esteticamente no cogito(3), plano do pensamento puro e inovador.

A instantaneidade das formalizações bem ordenadas do tempo do pensamento não admite sucessão de níveis; os níveis ficam juntos numa ordem própria, tendendo para fora do eixo horizontal. É por causa dessa tendência para fora que existe a percepção intuitiva de uma sucessão de níveis. Em cada nível, existe uma qualidade psicológica que, em nível um, por exemplo, por estar preso à realidade, preenche as lacunas, para manter a idéia linear de continuidade. Para quem está no cogito(1), ou mesmo no cogito(2) (cogito este já propenso ao pensamento lacunar), a vida temporal de quem se encontra no cogito(3) denota a presença de espaços mentais vazios. Nesse estágio, o pensamento transmutativo (privilégio do cogito(2), mas poucas vezes reativado) se evidencia com maior riqueza. Toda a vida do pensador (pensador singular, original) será fundamentada na força das formas (pensamentos) ainda não conceituadas, as quais darão coerência a sua vida mental, dissociada das razões corriqueiras.

Por estas razões, invadi esta dimensão particular do ficcionista Guimarães Rosa, impulsionada pelos estudos de Bachelard sobre a duração, desenvolvendo o que chamarei aqui de Psicanálise da Criação. Da filosofia bachelardiana retirei a minha idéia de uma consciente ascensão do escritor aos últimos estágios do pensamento, próximos ao cogito(4) da espiritualidade, plano totalmente lacunar, consentindo assim, a si mesmo, uma continuidade psíquica de suas origens, no âmbito da  Arte.

A força das formas desconhecidas (não conceituadas, intuídas), força que oferece coerência à vida lacunar, dissociada das razões corriqueiras, é o que Bachelard chama de estética pura, usando outras palavras, a transcendência formal/material, a ultrapassagem do tempo (sucessivo) das formas reais. O que se intui no cogito(3), para ter coerência, para ter duração e representação no mundo vital, terá de ser justificado por razões (juízos, conceitos), as quais passaram antes por atitudes psicológicas formalizadas e diversificadas. A razão, proveniente da definição psicológica, dará apoio (consistência) às intuições vislumbradas pelo pensador.

Fundamentando-me na idéia da transcendência dos pensamentos formal e material (o além do cogito(3)), desenvolvi a tese da sobrecarregação dinâmica dos significados, ou seja, quando se sobrecarrega a dinâmica dos significados, a linguagem transcende o discurso numa dimensão novamente inicial (do Desconhecido, do Abismo, do Silêncio, do Não-dito, do Amorfo), e esta transcendência, ao contrário de esconder o seu significado, como enigma, dá às claras o seu sentido como Arte, realizando uma transformação que impulsiona o Leitor ao exacerbamento da realidade, ultrapassando a Loucura e efetivando depois uma ascensão ao concreto da forma literária, isto é, na recriação literária dos três cogitos socialmente aceitos.

Quero realçar, aqui, a minha própria leitura sobre esta ascensão ao concreto da forma literária, realizada primeiramente pelo Artista literário, ao formalizar seus pensamentos criativos, e em seguida pelo Leitor, ao compactuar e colaborar com o texto lido. Depois de ter conhecido a escalada dimensional do escritor Guimarães Rosa, brasileiro, nascido em um pequeno burgo incrustado no Sertão das Gerais, até o último estágio do pensamento permitido pela razão, o Leitor conseguirá também alcançar o mundo do imaginário-em-aberto, aproximando-se, por intermédio da leitura, do plano descontínuo da espiritualidade.

O ficcionista moderno, preso a seu momento estético, alcança a região limítrofe que separa o plano vital do plano da espiritualidade, mas não se afasta do cogito(3), cogito vital, ao contrário, reafirmo, equilibra-se entre os dois cogitos (cogito(3) e cogito(4)), concretizando o que vislumbrou no mundo amorfo e descontínuo, sob a forma ficcional.

Quero afirmar que não é o texto (literatura-arte), mas é o Artista ficional brasileiro Guimarães Rosa, inserido em uma realidade insólita, lacunar, de país terceiromundista (décadas de 50 e 60), que ultrapassa o terceiro cogito, aproximando-se do tempo espiritual (cogito(4)). Por sua ligação vital com a História do século XX, ele adquiriu o privilégio de intuir e recriar, literariamente, os descontínuos de sua própria vivência de brasileiro, desde a infância no sertão até aos mais elevados cargos sociais. Na verdade (não seria incorreto afirmar), quem ultrapassa o terceiro cogito é a realidade brasileira, além do narrador e de suas narrativas. A nossa lógica não se identifica completamente com o racionalismo europeu. No Brasil, mesmo nas cidades, nas camadas primárias, é a lógica do Sertão (Mitos, Ambigüidades, Imagens, Símbolos) que completa o imaginário da população e o seu mundo referencial.

No que se refere a minha distinção entre sujeito e indivíduo, penso que alguns esclarecimentos serão necessários. Os termos sujeito e indivíduo farão parte do desenvolvimento de minhas reflexões, significando cada um os cogitos que compõem a vida emocional-racional do ser. O sujeito, simbolizando o ser adstrito às leis e normas (conformado e limitado ao cogito(1)), e indivíduo, simbolizando o ser possuidor de idéias próprias, particulares, componente de um pequeno grupo que busca a evolução do pensamento, cada um a seu modo, possuidor, enfim, de uma consciência singular.

O conceito de imaginação, recuperado nestas páginas para uma compreensão teórico-filosófica da obra de Guimarães Rosa, prende-se à orientação bachelardiana, que a vê como faculdade de deformar imagens, ao invés de formar imagens. (A faculdade de deformar imagens não poderá ser avaliada ou interpretada, aqui, depreciativamente. Bachelard não desenvolveu suas idéias filosóficas submetido a juízos preestabelecidos). A formação de imagens liga-se mais à percepção do sujeito integrado ao Mundo (seja ele representante de qualquer segmento da Arte), e sua imaginação seria simplesmente evasiva, aberta, submetida às substâncias sociais. A imaginação dinâmica do Artista literário brasileiro do século XX (literatura-arte), poderosamente deformadora, ao contrário, é um convite a uma incursão-excursão (evidentemente, submetida ao racionalismo da consciência singular) rumo ao Desconhecido (imaginário-em-aberto, mundo do silêncio, mundo do Vazio Criador, ou qualquer denominação oriunda das inúmeras nomenclaturas teórico-críticas já existentes).

Ainda dialogando com Bachelard, reflito nas duas linhas distintas de imaginação destacadas em seus estudos filosóficos: a imaginação que dá vida à causa formal e a imaginação que dá vida à causa material. Essas duas imaginações classificam, separadamente, as forças imaginantes da mente. A imaginação que dá vida à causa formal se submete ao impulso do pensamento que tem desejo de novidade, buscando nas formas exteriores da realidade apenas os aspectos pitorescos e primaveris. A imaginação que dá vida à causa material, ao contrário, escava o fundo do ser, procurando encontrar o primitivo e o eterno. É portanto a imaginação que busca o aprofundamento na substância.

A imaginação que dá vida à causa material (imaginação material) é própria da matéria terrestre. Repleta de imagens estáveis e tranqüilas, poderá ser modelada, uma vez que se atém aos aspectos perceptíveis/palpáveis da realidade.

Essas duas linhas da imaginação estão presas à realidade concreta. A imaginação formal se prende à forma exterior da matéria. A diferença é que, enquanto uma (a imaginação formal) se diverte com o inesperado, a outra (a imaginação que dá vida à causa material) quer aprofundar-se na história e buscar na natureza o princípio de tudo, o princípio da própria matéria.

Paralelamente a essas duas imaginações da matéria terrestre, há também as imaginações falada e criadora:

A imaginação falada é a imaginação que reproduz a realidade, submetida à percepção e à memória e não pode ser modelada pelas mãos. Ela é modelada pela fala e pela percepção do impalpável. Esse tipo de imaginação não se aplica à matéria terra: é a imaginação das matérias inconsistentes e móveis (a água, o fogo, o ar), composta por imagens instáveis.

A imaginação criadora, ao invés de simplesmente reproduzir, duplica — ou recria — a realidade, produzindo uma nova realidade. Ela não é apenas formada, materializada, falada; ela ultrapassa a realidade, já que, poderosamente criadora, vigora em função do irreal, reconhecendo os valores da solidão. Na imaginação criadora, as imagens são imaginadas, fazem parte do imaginário-em-aberto do indivíduo, pois que se originam do fundo do ser que imagina. O ser, possuidor da imaginação criadora, produz em seu íntimo as imagens que formarão posteriormente uma realidade (literária) diferente da realidade substancial. Assim, a imaginação criadora está indissoluvelmente ligada à imaginação literária (falada/escrita). Há a separação, porque nem sempre os possuidores da imaginação criadora desenvolvem seus talentos literários.

Por último, um esclarecimento sobre as quatro perspectivas do pensamento, assinaladas por Bachelard e recuperadas transmutativamente nestas argumentações, para o embasamento de meu particular reconhecimento da obra roseana. São elas as perspectivas anulada, dialetizada, maravilhada e de intensidade material infinita, as três últimas ligadas aos aspectos materiais do pensamento, valendo-se, cada uma, numa ordem hierárquica, dos pensamentos formal, material, falado e criador.

A perspectiva anulada estaria simplesmente ligada ao pensamento formal: linear, sintagmático, descritivo. A adjetivação anulada não significa depreciação, significa apenas a forma correta que o filósofo encontrou para nomear a perspectiva do sujeito que olha sempre horizontalmente, sem questionamentos existenciais. A perspectiva anulada reproduz os reflexos exteriores da realidade (as cores e as formas de uma natureza encantadora e sem máculas).

A perspectiva dialetizada, apesar de ainda estar presa ao plano sintagmático, já direciona o olhar questionador, oscilante, para a descoberta do que se oculta na natureza, em outras palavras, é uma perspectiva ligada aos aspectos materiais da realidade (presa oscilatoriamente à imaginação material), caracterizada apenas pelo elemento terra. A visão dialetizada torna-se aguçada, penetrante, propensa a movimentos pendulares, transformando o que se deseja ver em objeto, ou mesmo se colocando no interior desse objeto, para ver com maior nitidez.

A perspectiva maravilhada está intimamente unida à perspectiva dialetizada. Depois do olhar inquisidor e oscilante, ainda linear (perspectiva dialetizada), surge um novo olhar maravilhado, propenso à verticalização do pensamento criador. O sujeito se extasia diante da grandeza que descobre. As minúcias da realidade se dilatam indefinidamente, porque a visão do sujeito começa o seu processo de elevação em direção a um olhar paradigmático, próximo ao individualismo. A perspectiva maravilhada propõe-se então a descrever o interior da matéria observada. Nesse estágio, o observador/sonhador não pára mais de observar/sonhar. Ao alcançar esse estágio, Rosa premiou-nos com a sua grande obra GRANDE SERTÃO: VEREDAS.

Posteriormente, submetido à perspectiva substancial infinita, o olhar do sonhador/ intérprete se desprende totalmente do plano horizontal, porque o sujeito já se transformou em indivíduo e já alcançou o estágio da pura intuição. O olhar agora não se prende apenas à descrição das formas da matéria (exteriores e interiores), prende-se à descrição dos movimentos da matéria, detectando imagens novas, criando imagens dinâmicas a partir das imagens estáveis. O olhar móvel e paradigmático propiciará então uma descrição minuciosa das qualidades voláteis da matéria, ou melhor, das matérias que compõem a realidade vital, já que observará, por vários ângulos interativos, as formas antes indefinidas: o fogo, a água e o ar. As obras finais de Guimarães Rosa, a começar de PRIMEIRAS ESTÓRIAS, adquiriram forma ficcional através dessa perspectiva.

Fechando minhas considerações sobre as perspectivas, já poderei afirmar, conscientemente, que as perspectivas dialetizada, maravilhada e a substancial infinita necessitam, no plano narrativo, da contribuição do pensamento formal. No âmbito da ficção, este plano formal do pensamento exigirá do estudioso muita atenção, uma vez que o cogito(1) (pensamento formal, linear), será sempre a base que sustentará os outros patamares dos cogitos verticais. Um texto ficcional vertical, por mais elevado ou profundo que seja, necessitará sempre da sedução das formas, do encanto que emana do pitoresco, para que possa realizar seu objetivo final: receber a atenção do Leitor.

Realçando mais uma vez minhas premissas, limitarei a minha proposta para um novo posicionamento crítico, brasileiro, a quatro módulos, para o desenvolvimento e fecho de meu objetivo: (a) falar do Artista ficcional Guimarães Rosa e suas faces sociais, de sua obra e matéria eleita; (b) de seu momento de repouso ativado (estado reflexivo situado num tempo suspenso entre o antes e o depois), momento de intermediação que projeta ou não o pensador para uma ascensão aos cogitos superiores; (c) abordar a problemática da psicanálise da criação (os cogitos e os elementos que marcaram a produção literária de Guimarães Rosa, além de sua própria introjeção no seu universo ficcional), problemática esta dialetizada ad infinitum pelo ficcionista, o qual não se desprende em absoluto dos cogitos dois e três, (d) mesmo constatando-se a sua familiaridade com o cogito(4) (a facilidade em transformar o ilógico em lógico, no universo da Ficção-Arte).

O além do cogito(3) fechará minhas elucubrações teóricas sobre o escritor e sua Obra, momento em que procurarei provar que o cogito(4), mesmo sendo um plano de difícil acesso (fora dos limites vitais, no qual poderiam ser incluídos os Loucos e os Visionários), é uma dimensão que foi alcançada, criativamente, pelos escritores brasileiros do século XX. Na impossibilidade de desenvolver um reconhecimento crítico globalizante sobre esses escritores, destacarei  um singular intérprete ficcional da realidade interiorana de Minas Gerais, Guimarães Rosa, independente das teorias que o avaliam como narrador de estórias sertanejas.

Para reforçar minhas convicções teóricas, as quais levaram-me a pensar e repensar a forma correta de como sustentar a defesa de meu objetivo central, contei, evidentemente, com a contribuição filosófica de Gaston Bachelard, sobre a duração e sua positividade/negatividade e vice-versa e suas providenciais argumentações sobre as matérias que compõem a vida. Além de Bachelard, assinalarei, também, as contribuições sociológicas de Max Weber e Walter Benjamim, e de outros pensadores e teóricos que preencheram, ao longo de minha vivência acadêmica, as lacunas de meu Conhecimento. Deste modo, pelo ponto de vista da interdisciplinaridade, será possível detectar tais contribuições sociológicas e, diluídas ao longo destas páginas, as contribuições de vários estudiosos da hermenêutica do texto literário, além de se apreender com clareza minha formação de base semiológica, alicerce analítico para os demais paradigmas críticos da atualidade. Todos os pensadores e teóricos que auxiliaram-me, direta e indiretamente, por intermédio de seus escritos, serão discriminados na Bibliografia.

Finalizando, o que se busca nesta PROPOSIÇÃO é reconhecer a escalada sócio/mental do Artista brasileiro Guimarães Rosa, nato do sertão e cidadão do mundo, aos cogitos superiores da mente. Depois do reconhecimento, passarei a evidenciar a sua incursão/excursão ao plano intermediário entre o mundo vital e o mundo espiritual e o seu retorno ao plano do cogito(3) do pensamento puro, representado, nas suas últimas fases criativas, por um discurso insolitíssimo (vazio criador), beirando os limites frágeis da sanidade.